quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Morte de pais, morte de filhos
Agora, no entanto, mata-se tudo, matam-se todos. Por futilidade. Antes, pais matavam primogênitos, deuses exigiam o sangue de nações inteiras, irmãos mataram irmãos, a morte em nome da divindade. Isso nos vem desde os caldeus, passa pelos egípcios, caminha pela história, registra-se nos palcos da tragédia grega. Quando Freud agarra-se à figura de Édipo, tentando resumir o horror humano, apenas traz, para tempos mais próximos, a fábula que Aristóteles considerou a mais perfeita das tragédias gregas, “Édipo Rei”, de Sófocles. Desde Abrahão, o Ocidente traz heranças milenares desses deuses sedentos de sangue, de sacrifícios, de guerras sem fim entre pais e filhos, irmãos e irmãos.
Amigos em mesas de bar, pensadores, filósofos, analistas, padres confessores cansam-se de saber: há sempre alguém querendo matar a pessoa amada ou desejando que ela morra. Se, nos primórdios dos tempos, matava-se o outro no altar do sacrifício, agora, mata-se apenas por matar. Renunciando–se ao sagrado e à ancestralidade, até os parricídios tornam-se banais.
A experiência de viver se faz em alta velocidade, na adrenalina enlouquecida. Querendo participar de tudo, não se distingue o essencial. Não se diferencia, então, o encantamento do horror. Não há tempo de pensar. Nem de sentir. As pessoas não amam e não odeiam, apenas passam umas pelas outras. E provocam a mais cruel das mortes: a indiferença. Se não há mais altares de consagração – o do mistério, o da amizade, o do amor, o da ancestralidade – viver é um simples estar. E, então, pouca diferença há entre amar e odiar.
Sagrados são os filhos, sagrado é o lar, sagrada é a família, sagrada é a Terra, desde o chão que se pisa até o túmulo onde se repousa. Sem a sacralidade da vida, apequenam-se os sentimentos. Não há mais papéis a cumprir, a não ser aqueles de passagem, descompromissados. A família e o lar tornam-se – até mesmo quando os filhos ainda fazem parte dela e estão nele – lugar de passagem, a hospedaria, um espaço de solidão de cada um entre muitos. Pais e filhos – na periferia ou na epiderme do amor – tornam-se, quando muito, amigos ou simples conhecidos. E, também, inimigos. Como ser filho, se não se enxerga o pai? Como ser homem, sem ser filho, sem ter pai?
Quando – com a tranqüilidade de quem vai ao clube – filhos matam os pais, vê-se a perspectiva banal de vida e de morte. Sem a experiência de um mundo consagrado, o ser humano não tem outra dimensão além de sua condição primitiva de bicho. Pois a sagração da vida e do mundo é a vivência e a convivência, ao mesmo tempo, do Nefando e do Inefável – de tudo o que é horror e de tudo o que é sublime. Em cada um de nós.
Garotos que cometem parricídio, não matam , pensou eu, nem mãe, nem pai. Matam pessoas conhecidas. Não há tragédia, mas outro fato corriqueiro da violência como hábito. Com a mesma frieza, ela poderia ter matado professores ou donos de um hotel que o contrariassem, como está ocorrendo cada vez mais banalmente em todo o mundo.. É apenas outro crime vulgar. Ora, não se profana o que não é sagrado. E o nefando ocorre tão somente onde houver o inefável. E – entre pais e filhos, lares e família – o inefável, para onde foi? Bom dia.
crime em familia
Crime na Vila Rossi abala a cidade; rapaz se entrega à polícia logo após a execução, mas não revela motivo do assassinato
São José dos Campos
Pedro Ivo PratesO auxiliar técnico Roberto de Oliveira Silva, 23 anos, executou seu pai a tiros na Vila Rossi, na região norte de São José dos Campos. Após disparar 40 tiros, Silva ligou para Polícia Militar e ficou ao lado do corpo aguardando para ser levado à delegacia.
O crime aconteceu anteontem na rua Tuiuti, onde o pai de Silva, o funileiro Reinaldo Ferreira, 50 anos, morava sozinho. Silva trabalhava no CTA (Centro Técnico Aeroespacial) e é considerado por amigos e parentes como sendo uma pessoa de conduta normal.
Segundo o delegado do 4º Distrito Policial, André Luiz Fernandes, Silva estava abalado e não quis comentar o motivo que o levou a matar o próprio pai. "Ele confessou o crime, mas disse que não falaria sobre o que o levou a fazer isso."
O delegado suspeita que o crime possa ter sido motivado por vingança de maus tratos. Segundo testemunhas, o pai de Silva era alcoólatra e usuário de drogas e --mesmo separado da família há mais de um ano-- continuava procurando a ex-mulher para agredi-la. Para o delegado, essa atitude teria revoltado o filho.
Ferreira foi morto com tiros de pistola 380 semi-automática, com capacidade para 13 tiros. No local, a polícia encontrou 40 cápsulas de balas deflagradas. Para atirar tantas vezes contra o pai, Silva teria carregado a pistola quatro vezes. Segundo o delegado, pelo menos 20 tiros atingiram a vítima.
Silva foi preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar). A pena prevista para o crime é de 6 a 20 anos de prisão. Ele foi levado para o Cadeião do bairro do Putim.
TENSÃO - Ontem, o clima na rua onde morava Ferreira era tenso. Os vizinhos temiam falar sobre o assunto e diziam que o pai de Silva ficava agressivo quando estava bêbado.
Os vizinhos também ressaltaram a integridade do acusado.
Ferreira foi enterrado ontem no cemitério do centro da cidade. A mulher e a filha mais nova da vítima acompanharam o enterro, mas não quiseram comentar o caso.
"Essa história é muita longa e a gente sabia que mais cedo ou mais tarde ia acabar assim", disse o cunhado da vítima, que não quis se identificar. Ele estava tremendo e confirmou que pai e filho não se devido aos vícios de Ferreira.
Silva, a mãe e a irmã estavam morando na casa de um parente no bairro Alto da Ponte, também na região norte.
Vale do Paraíba, sábado, 27 de março de 1999Copyright © O ValeParaibano 1999
terça-feira, 11 de novembro de 2008
A delicada relação entre pais e filhos
Como se não bastasse a onda de violência e criminalidade que atinge o país todo e o mundo, temos ouvido nos últimos tempos, muitas notícias de filhos que matam seus próprios pais em situações de extrema crueldade. Problemas e dificuldades familiares são expostos nas páginas criminais dos principais jornais.
Pais e mães com filhos adolescentes ou pré-adolescentes têm recorrido a profissionais como psicólogos, psiquiatras e educadores, na procura de respostas e conselhos sobre o que fazer com seus filhos quando esses costumam apresentar problemas como: comportamentos socialmente inadequados, dificuldades de relacionamento interpessoal, bem como problemas de adaptação escolar e aprendizagem. As maiores queixas ficam entre os comportamentos sociais inadequados e dificuldades de convivência familiar. A situação anda tomando uma tal proporção, que alguns pais começam a trancar a porta de seus quartos, na hora de dormir, e enquanto outros vão mais longe ainda, blindando as paredes e portas de seus quartos.
Horrorizados, muitos se perguntam “o que estará acontecendo com nossos jovens?” E, penso eu, que a questão poderia ser pensada de outra forma: “O que estará acontecendo com nossos pais e mães que parecem estar esquecidos de sua função de educadores desses jovens?”
Olhando um pouco para trás, percebemos que a partir da década de 60 e da revolução sexual, tivemos o início de uma transformação nos costumes e valores válidos em nossa sociedade. Entre tantos outros conceitos questionados, os modos de educação mais repressores foram postos em cheque, e começou a se erguer a bandeira da educação mais liberada para prevenir os “traumas” que uma educação muito repressora poderia causar na vida emocional dos filhos.
Ainda, com o desenvolvimento das pesquisas na área da psicologia e psicanálise, enfatizando a importância da influência do ambiente na formação de um indivíduo, a questão da educação dos filhos tem merecido um maior cuidado por parte de educadores, psicólogos e estudiosos de várias áreas. Muitas são as teorias novas que surgem sobre o que fazer, como proceder, tudo na tentativa de orientar os pais nessa difícil tarefa.
Com isso, tivemos uma mudança de panorama.
Se pelas gerações antigas a criança era tratada como um “mini-adulto”, sem direito a desejos e vontades, sem direito a quaisquer cuidados especiais em respeito à sua condição de criança, parece-me que as gerações mais jovens, talvez tenham pecado pelo excesso, no sentido inverso, passando a tratar a criança como um “rei no trono”.
Tudo passaria a ser motivo de trauma para a criança e para o adolescente. Se uma criança apanhava, era castigada, ou apenas repreendida, já se poderia considerar isso como motivo de trauma.
É claro que não estou falando aqui a favor de prática de maus-tratos contra a criança ou o jovem, e isso é uma questão seriíssima que vem sendo tratada com muito mais respeito, nos últimos tempos, graças também a essa transformação social que se operou, e que mereceria outro momento de discussão. Mas, nem de longe, podemos pensar que pais e mães não possam repreender seus filhos. Essa é uma função muito importante no processo de educação. A educação é feita com base no afeto que se transmite ao filho, e com base no limite que se pode dar a ele também. A criança precisa conhecer o amor, a amizade, o respeito e a consideração, mas também, quais são os limites que ela tem de respeitar, entre a vida dela e a do outro, para que ela possa tornar-se um ser humano apto para a vida em comunidade.
A atenção e o respeito que devem ser dados à criança não podem provocar uma inversão na ordem das gerações entre pais e filhos. Esse é o pior desserviço que um pai pode prestar a um filho.
Os pais precisam colocar limites para seus filhos crescerem. A criança é um ser com uma quantidade enorme de energia, que precisa, desde cedo, ser bem canalizada. Ela precisa aprender a gerenciar essa energia adequadamente e, para tanto, precisa de um enquadramento e um direcionamento que, principalmente, aos pais cabe dar.
Hoje em dia, também é muito comum ouvirmos que pais e mães precisam ser amigos de seus filhos. Aqui, igualmente, é preciso ter cuidado com a inversão de ordem.
É muito importante que pais e mães possam ser amigos de seus filhos, mas, antes de qualquer outra coisa, por amor a seus filhos, os pais têm o dever de educá-los, de colocar limites, estabelecer proibições. O que se espera de pais amigos de seus filhos, inclusive o que os próprios filhos precisam são de pais e mães mais próximos, mais disponíveis, abertos a escutá-los, a discutir e orientá-los naquilo que eles lhes solicitarem, ou naquilo que os pais entenderem necessário fazê-lo. Mas, precisam igualmente de pais que saibam dizer não, estabelecer o que é certo e o que é errado, e quais os limites que precisam ser seriamente respeitados.
Se os pais se comportam somente como amigos de seus filhos, podemos nos perguntar “quem estará fazendo o papel dos pais em seu lugar?” E esse é um grande perigo, pois a criança e o jovem precisam de orientação adequada e segura, além de alguém que apenas os ouça e os aconselhe como um amigo faria. Precisam, sim, de alguém que funcione como um porto seguro para onde recorrer, quando surgem os problemas e não sabem o que fazer, mas precisam que esse porto seguro seja suficientemente firme e forte para orientá-los quando não sabem como proceder, para repreendê-los quando estiverem errados e para ensiná-los a respeitar a si mesmos, e aos outros, preparando-os para a vida em comunidade.
Quando se inverte o sentido dessa relação, com os filhos colocados em um trono, ou tratados como um rei, e com os pais deixando de cumprir sua função de educadores, as crianças crescem sem orientação, sem limites, sentindo-se sozinhas e desconectadas de sua própria família, sem uma verdadeira identificação com esses pais, pois lhes faltam um modelo forte, seguro e afetivo, que elas possam admirar, seguir, amar e respeitar.
Para educar um filho não há fórmula ou manual que se possa seguir, pois cada filho e cada pai e mãe são únicos em sua natureza. Todos precisam ser respeitados. Nós escolhemos com quem vamos nos casar, de quem vamos ser amigos, mas não escolhemos nossos filhos e nossos pais. Apenas temos que conviver com eles, e essa convivência nem sempre é fácil. Porém, uma coisa é certa, e precisa ser lembrada: Educar é também frustrar; é dizer não e contrariar a vontade do filho, quando necessário. Não há como escapar disso, sob pena de o próprio filho sofrer as conseqüências em sua saúde física e mental. Não há como ser bom pai ou boa mãe só esperando serem amados por seus filhos. É preciso, muitas vezes, suportar a frustração de ser odiado por seu filho num dado momento, para o próprio bem dele no futuro, ainda que isso, na maioria das vezes, custe muito caro aos corações dos pais e mães.
Postado por Norma Flávia.
Amor, diálogo e liberdade no relacionamento entre pais e filhos
Outros recursos são importantes, mas estes não podem faltar nunca sob pena do relacionamento se degenerar em desentendimento.
É indispensável que pais e filhos cultivem o amor. Com ele no coração, as pessoas se tornam mais compreensivas, pacientes e indulgentes para com as imperfeições e faltas dos outros.
O diálogo deve ser uma prática constante em família. Deve continuar durante a infância, quando os pais, esforçando-se para descer ao nível das crianças, falam sua linguagem e se fazem compreendidos.
Na adolescência, o diálogo tem importância capital, não podendo ser negligenciado de maneira alguma. Nesta fase, é necessário agir com muito tato e tolerância, porque os adolescentes costumam ser mais sensíveis e emocionalmente instáveis e inseguros. E os adultos têm mais condições de compreendê-los.
Após a adolescência, é ideal que o tratamento, que era de pais para filhos adolescentes, passe a ser de adultos para adultos, porquanto os jovens já sabem discernir bem o certo do errado e já têm condições de escolher o seu caminho, embora não devam dispensar as orientações e experiência dos pais.
A liberdade é um dos direitos da criatura e deve ser proporcional à maturidade e responsabilidade de cada uma. É ideal que a liberdade seja concedida aos filhos de acordo com a responsabilidade. Mais do que uma concessão, deve ser uma conquista dos filhos que, para isto, devem procurar agir com muita responsabilidade. Quanto mais maduros e responsáveis, mais liberdade conquistam.
Escrito por: Umberto Ferreira
Retirado do site: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/gebm/relacionamento-pais.html
Postado por: Ingrid Becker Saueressig
- Os problemas de relacionamento entre pais e filhos -
A família sempre apóia os filhos em tudo o que eles fazem, desde que sejam coisas razoáveis (dentro das regras familiares), e é ela quem promove o sentido de segurança aos filhos.
Dentro de uma família (pais e filhos) podemos definir dois tipos básicos de relações:
Relação entre os pais (marido e mulher):
A relação homem-mulher inicia uma nova família. São duas pessoas diferentes, com suas próprias crenças, valores, educação e cultura, que necessitam ajustar-se em seus princípios para uma boa convivência. E como é que se obtém o equilíbrio conjugal? É de suma importância que o casal tenha respeito mútuo, amor, e que possa trocar idéias através de muita conversa e diálogo para propiciar, dessa forma, um ambiente saudável ao crescimento dos filhos. Os pais necessitam estar sempre de comum acordo (pelo menos na frente dos filhos) para promover uma educação satisfatória.
Quando os filhos são pequenos, os pais sempre decidem "o que", "como" e "quando"; ou seja, eles têm plenos poderes sobre seus filhos e por eles tomam as decisões que julgam corretas. A criança vive cômoda e prazerosamente nesta relação de dependência, com suas necessidades básicas satisfeitas e papéis claramente definidos. Mas, quando os filhos chegam à fase da adolescência, surge, na maioria das famílias, uma série de conflitos entre os pais e os filhos!
Os pais têm dificuldade para aceitar o crescimento de seus filhos... Quantos pais dizem sentir saudades do tempo em que os filhos eram bebês? Admitir que o filho cresceu equivale a reconhecer que eles estão ficando mais velhos! Para o pai, é difícil aceitar que sua eterna namoradinha agora se interessa por um outro homem que não é ele! E a mãe, muitas vezes, não consegue tolerar a existência de outra mulher cheia de juventude!
Muitos pais não se conformam por terem perdido o "posto" de heróis insubstituíveis dos filhos, e não conseguem suportar o olhar crítico dos jovens, pois estes começam a enxergar os pais como são: pessoas com todos os defeitos e qualidades que lhe são próprios. Há pais que passam a controlar exageradamente a vida dos filhos, como se pudessem, com isso, voltar a tê-los como crianças: não respeitam sua privacidade, querem participa r da vida deles de forma integral, e usam, para o controle deles, os perigos que aumentam nesta fase (a violência, a AIDS, etc...).
Muitos pais querem antecipar questões aos filhos para evitar sofrimentos futuros... Mas o único método conhecido para se aprender algo é vivendo! Na realidade, a maioria dos problemas na relação entre pais e filhos baseia-se num conflito de poder! Os pais podem exercer o autoritarismo (quando o poder está em suas mãos) para atender suas próprias necessidades, ou fazer uso da permissividade, quando delegam o poder nas mãos dos filhos para fazerem o que desejarem...
O mais importante neste tipo de relacionamento é uma resolução conjunta; buscar juntos e criar soluções conciliatórias para que todos sejam bem atendidos (onde as minhas necessidades são tão importantes quanto as suas). O maior papel dos pais consiste em apoiar, compreender e dialogar sempre com seus filhos!!!
- 7º Conto: Antes do baile verde -
O rancho azul e branco desfilava com seus
passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte
de peruca prateada em forma de pirâmide, os
cachos desabados na testa, a cauda do vestido de
cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro
do bumbo fez uma profunda reverência diante
das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu
com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a
capa encharcada de suor.
– Ele gostou de você – disse a jovem, voltando-
se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento
foi na sua direção, viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo
menos na minha opinião. E já deve estar chegando,
ficou de me pegar às dez na esquina. Se me
atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não
sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até
a mesa-de-cabeceira. O quarto estava revolvido
como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado
caixas e gavetas.
– Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é
fogo... Tenha paciência, mas você vai me ajudar
um pouquinho.
– Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os
joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas
também verdes.
– Acabei o quê! falta pregar tudo isso ainda,
olha aí... Fui inventar um raio de pierrete dificílima!
A preta aproximou-se, alisando com as mãos
o quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha
trazia um crisântemo de papel crepom vermelho.
Sentou-se ao lado da moça.
– O Raimundo já deve estar chegando, ele fica
uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos,
hoje quero ver todos.
– Tem tempo, sossega – atalhou a jovem. Afastou
os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou
o abajur que tombou na mesinha. – Não sei como
fui me atrasar desse jeito.
– Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa?
Tudo, menos perder o desfile!
– E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-
o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida,
levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas
formando uma constelação desordenada.
Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente
tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote,
fixando-a com pequenos movimentos circulares.
– Mas se tiver que pregar as lantejoulas em
todo o saiote...
– Já começou a queixação? Achei que dava
tempo e agora não posso largar a coisa pela metade,
vê se entende! Você ajudando vai num instante,
já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem
disse nada, sua bruxa! Hein?... Que tal?
– Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim
verde, você está parecendo uma alcachofra, tão
gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a
cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão
na face afogueada.
– Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É
um baile verde, as fantasias têm que ser verdes,
tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos,
não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta
mais da metade, Lu!
– Estou sem óculos, não enxergo direito sem
os óculos.
– Não faz mal – disse a jovem, limpando no
lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo.
– Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém
vai reparar, vai ter gente à beça. O que está
me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho
a impressão de que estou me derretendo, você
não sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que
resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou
o tom de voz.
– Estive lá.
– E daí?
– Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente.
Alguns meninos puseram-se a cantar aos
gritos, o compasso marcado pelas batidas numa
frigideira: A coroa do rei não é de ouro nem de
prata...
– Parece que estou num forno – gemeu a jovem,
dilatando as narinas porejadas de suor. – Se
soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.
– Mais leve do que isso? Você está quase nua,
Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque
aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.
Imagine você então...
Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma
lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou-
a cair na pequena constelação que ia armando
na barra do saiote e ficou raspando pensativamente
um pingo ressequido de cola que lhe caíra no
joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se
em nenhum. Falou num tom sombrio:
– Você acha, Lu?
– Acha o quê?
– Que ele está morrendo?
– Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um
monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele
não passa desta noite.
– Mas você já se enganou uma vez, lembra?
Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas... E
no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.
– Radiante? – espantou-se a empregada. Fechou
num muxoxo os lábios pintados de vermelho-
violeta. – E depois, eu não disse não senhora
que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi
o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei
da porta, nem precisei entrar para ver que ele está
morrendo.
– Mas quando fui lá ele estava dormindo tão
calmo, Lu.
– Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos
joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou
a garrafa de uísque e procurou um copo em
meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o
debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo
cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando
os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu-
se à preta.
– Quer?
– Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.
A jovem despejou mais uísque no copo.
– Minha pintura não está derretendo? Veja se
o verde dos olhos não borrou... Nunca transpirei
tanto, sinto o sangue ferver.
– Você está bebendo demais. E nessa correria...
Também não sei por que essa invenção de saiote
bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas
no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com
o pensamento no Raimundo lá na esquina...
– Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo
a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! Esse
cara não pode esperar um pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão
deliciada a música de um bloco que passava já
longínquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando...acabou chorando...
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Família- Os pais e o egoísmo dos filhos
Gastam o dinheiro da mesada ou do salário com compras particulares, de roupas e outras coisas, que servem apenas a si próprios. Não se preocupam em auxiliar as despesas da família.
Não medem despesas com o carro, mas só para as suas necessidades, entre elas festas e baladas, ficando furiosos quando lhe pedem o carro emprestado.
Abarrotam o quarto com roupas, calçados, objetos os mais diversos, e dizem que, mesmo não mais os utilizando, eles devem ficar onde estão, pois dar para quem precisa é coisa de otário.
Criticam a vida de familiares e amigos, mas ai de quem ousar em reclamar alguma coisa deles mesmos, partindo muitas vezes para a agressão para defender os seus direitos.
Diante desses quadros, dos quais só retratamos alguns, os pais se perguntam onde erraram na educação dos seus filhos. Como podem eles demonstrar tanto egoísmo se tudo foi feito para que se tornassem bons e honestos?
E, diante dessa pergunta, logo vem o autodesculpismo: é a índole má que, se antes não demons-trava, agora, adulto, coloca para fora, mostrando o que ele é realmente. Só esperava o momento e as condições propícias para eclodir. E arrematam: também, com toda essa má influência dos meios de comunicação e dos grupos sociais, não há mesmo como a educação dada pelos pais prevalecer.
Sem dúvida que uma má índole pode permanecer por um bom tempo encoberta, camuflada, para despontar, ou melhor, para se mostrar por inteira apenas quando o indivíduo se sente seguro de si mesmo, o que muito ocorre quando ele chega na juventude. Entretanto, é bom lembrarmos que os pais são os responsáveis pela formação moral dos seus filhos, cabendo-lhes prevenir futuros desvios através da educação.
A má influência proporcionada pelos meios de comunicação ocorre, e muitos são os jovens que se deixam enganar por propagandas tendenciosas, por filmes e também programas televisivos que defendem valores negativos, mas os meios de comunicação como jor-nais, revistas, rádio, tevê, cinema, internet possuem também o seu lado de influência positiva, assim creditar a má índole do seu filho exclusivamente ao poder da mídia é limitar demais a possível causa. E não compete aos pais acompanhar e trabalhar essa influência?
Mas, e os grupos sociais? Não são eles muitas vezes perniciosos para a formação do caráter do jovem? Não é a influência do meio que arrasta para as drogas, para as bebidas, etc? Se assim fosse, com exclusividade, deveríamos trancar nossos filhos em casa, não permitindo sequer sua freqüência à escola. Mas nenhum pai, em sã consciência, irá defender essa atitude. É a educação que deve mostrar aos nossos filhos o bem e o mal, que deve fazer com que desenvolvam o senso moral, sabendo escolher os verdadeiros amigos. Esse trabalho é responsabilidade dos pais.
Enfim, percebemos que as influências externas exis-tem e nem sempre são positivas, e que uma pessoa pode camuflar seu verdadeiro caráter por muito tempo, pelo menos ostensivamente na frente dos outros, mas compreendemos que nenhum desses fatores é decisivo para explicar o que são nossos filhos, agora adultos.
Bruno Zaminsky